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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Reflexões filosóficas sobre a linguagem

Percebe-se que já na Antiguidade, no pensamento socrático, a linguagem se tornara objeto de estudo e interesse para os sofistas. Podemos ainda destacar duas relevantes teses: a primeira, defendida por Górgias[1], sobre a impossibilidade do discurso verdadeiro, e a segunda, que é a tese convencionalista de Demócrito, sobre a significação das palavras.


Os sofistas[2] eram os mestres da retórica ou da cultura geral e, tivera, na Grécia notável influência no clima intelectual da época (séculos V e IV a.C.).


É verdade que a sofística não era propriamente uma escola filosófica, mas uma orientação genérica, que os sofistas acataram genericamente pelas próprias exigências de sua profissão.


Insurgiu contra a sofística Platão que defendeu que existe uma reflexão sobre a linguagem. Entre os diálogos platônicos que tratam sobre a linguagem, destaca-se o Crátilo[3] (388 a.C.), onde após indagar sobre como uma expressão adquire sua significação, respondeu o filósofo por meio da adoção da teoria naturalista da linguagem, segundo a qual as palavras apresentam a essência das coisas.


Crátilo é oficialmente o texto fundador da discussão filosófica sobre a linguagem. Fora escrito originalmente no século V a.C. e apresenta três personagens: 1) Crátilo, filósofo que tem uma compreensão naturalista da linguagem; 2) Hermógenes, que tem uma visão convencionalista em relação à linguagem; e, por derradeiro Sócrates, melhor dizendo, o Sócrates platônico.



Nesse diálogo, no Crátilo, Platão então abordou um assunto novo, ou seja, a linguagem, e neste momento, se concretiza que "Platão que fala pela boca de Sócrates".


Nesse contexto Crátilo e Hermógenes representam pois dois polos extremos e, por conseguinte, em conflito. Crátilo que segundo a tradição filosófica de Heráclito (de quem era discípulo) defendeu a tese de que os nomes ou são verdadeiros, ou não são nomes de qualquer espécie. Para o filósofo, ou uma palavra é a expressão perfeita de uma coisa, ou é apenas mero som articulado.


Por outro lado, Hermógenes defendeu que o ato de nomear, de dar nome aos objetos, é convencional. Para ele os nomes podem ser dados arbitrariamente de acordo com os interesses e valores socioculturais envolvidos.


Já Sócrates[4] emerge como a alternativa a estes dois polos antagônicos. Segundo ele, o objetivo da especulação sobre a linguagem não é demonstrar se a mesma é natural (posição defendida por Crátilo) ou convencional (posição defendida de Hermógenes) mas que tenha uma dimensão natural, no sentido de que existem categorias universais e metafísicas a serem observadas, e, ao mesmo tempo, convencional, visto que a mesma está ligada à diversidade das atividades socioculturais do ser humano.


Nesse sentido, uma palavra é justa ou certa, na medida em que apresenta a coisa, respeitando os limites impostas pela essência do objeto. O pensamento é concebido como espécie de visão intelectual[5]: a contemplação do ser verdadeiro.


Assim, a ordem objetiva, uma vez captada, serve de medida, de norma de retidão para a linguagem, estabelecendo-se, então, um isomorfismo entre a estrutura gramatical e a estrutura ontológica, ou seja, a construção de uma língua não é puramente arbitrária (rejeição da teoria convencionalista).


Afirmou então Platão[6] haver uma correspondência entre a linguagem e o ser, pois os nomes separam e distinguem essências.


Quanto é exato, o nome apreende todas as coisas, entre as diversas que possuem a mesma essência, sendo, por isso, um instrumento de ensino (diadascallion[7]).


Desse modo, a adequação dos nomes às coisas se mede pela sua capacidade de correspondência à estrutura ontológica dos objetos. Daí porque quem julga a exatidão dos nomes é precisamente aquele que é capaz de conhecer as essências, ou seja, o filósofo.


A principal tese platônica afirmou é que o real é conhecido verdadeiramente em si, sem a utilização de palavras, isto é, sem a mediação linguística (é a contemplação de ideias de Platão).


A linguagem não é constitutiva da experiência do real, mas é apenas um instrumento com a função designativa, utilizado posteriormente para expressar o objeto do pensamento.·.
Desta forma, é possível se conceber um sistema ideal de sinais, que, melhor realizando sua função designativa, permite ao homem dominar o mundo objetivo[8].

Há a separação radical entre a palavra e o ser, o que constitui o fundamento da teoria instrumentalista da linguagem até os nossos dias. Tal questão permaneceu no pensamento de Aristóteles que desenvolveu a teoria do significado[9], na qual ao estudar o discurso em geral, deu especial atenção às proporções, observando que no discurso, se faz abstração da existência da coisa significada, a significação não contém em si referência à existência.


Já na proposição, há uma referência à existência da coisa[10], uma vez que é um julgamento a respeito da existência do que é significado.


A proposição é, desse modo, o lugar da verdade ou da falsidade, já que pode corresponder ou não às coisas. Não é enquanto significante, mas enquanto a verdadeira que a linguagem humana se assemelha ao real (discurso judicativo).


Entende Aristóteles[11] a linguagem como símbolo do real, o símbolo não substitui o objeto, sendo uma intervenção do espírito (convenção), em um determinado sentido. Assim, a linguagem não manifestaria o real, mas o significaria.


Surge aí, um busilis, pois se as palavras são significativas por convenção, o que garante que as mesmas conservem uma unidade de significação? Portanto, para a comunicação ser possível é necessário pressupor um fundamento objetivo, que é a própria essência.


O que garante, por exemplo, que a palavra “aula[12]” tenha uma significação una é o mesmo que faz com que a “aula” seja sempre aula, ou seja, a ousia (essência).


Percebemos que assim a permanência da essência é pressuposta como fundamento da unidade de sentido: é porque as coisas possuem essência que as palavras têm sentido.


Analisando a linguagem chegamos até a ontologia pois há correspondência entre a exigência linguística de unidade e o princípio ontológico de unidade. Então, a essência aparece como condição de possibilidade da comunicação.


A Idade Média representou um período homogêneo em relação à Antiguidade, salientando-se, porém, que essas questões passaram a ser pensadas no interior da Revelação Cristã[13].


Tal contexto fora modificado pelo nominalismo[14], representado pelo pensamento de Guilherme de Okham[15] que significou uma ruptura com o movimento anterior, ao defender entre outras teses, a ausência de substancialidade dos universais, afirmando que estes são desprovidos de realidade ontológica, na medida em que existem apenas no intelecto humano, como signos, designando um conjunto de semelhanças abstraídas de coisas individuais.


Mesmo assim prosseguiu a tradição filosófica ocidental que perdurou por toda modernidade, a ideia de que a consciência pode atingir a certeza plena (questão fundamental da teoria do conhecimento), independente da mediação filosófica.


Segundo Habermas o progresso gerado pela filosofia de G. Frege[16] significou o primeiro passo para o chamado linguistic turn. O que foi capaz de oferecer relevante distinção entre o pensamento (Gedanke) e representação (Vorstellung) mas não foi suficiente para romper essa tradição, que continuou predominando no pensamento filosófico do século XX.


Nessa direção, encontra-se, por exemplo, o neopositivismo lógico[17] do Círculo de Viena[18], como se percebe em Moritz Schlick e Rudolf Carnap. Warat observa que há uma ideia medular no Círculo de Viena, que é referente às condições semânticas de verificações como critérios de significação (uma ideia é sempre representação de certos efeitos sensíveis). Acontece que essas concepções semiológicas encontram-se comprometidas com uma filosofia da ciência, que devota um culto obstinado e cego a certas concepções míticas de verdade.


Assim, todo enunciado, que não possa ser relacionado como critério de verdade, carece de sentido, o que marginaliza as outras funções da linguagem.


Os neopositivistas assumem o rigor discursivo como paradigma da investigação científica, aparecendo a linguagem como instância fundamental, na medida em que serve para só para o intercâmbio de conhecimentos, como também como forma de controle destes, que podem ser obscurecidos por certas perplexidades de natureza estritamente linguística.


Para estes, onde não há rigor linguístico é traduzir em uma linguagem rigorosa os dados do mundo. Segundo essa concepção, o signo que é composto por dois elementos: o indicador (significado) e o indicado (referência), são estudados sob três pontos de vista, a partir das relações que podem manter.


O primeiro ponto de vista é o da sintaxe, que é a relação de um signo com os outros signos; o segundo é o da semântica, relação do signo com os objetos designados, e o terceiro é o da pragmática que é a relação entre os usuários.


O Positivismo, seguindo a tradição conforme já demonstrado, privilegiou os dois primeiros aspectos, isto é, o da sintaxe, onde se estuda as relações dos signos entre sim, prescindindo dos usuários e das designações (v.g., estuda as regras de formação e da derivação de toda linguagem), e da semântica, cujo problema central é o problema da verdade, em detrimento do aspecto pragmático.


Uma expressão linguística, bem formulada sintaticamente, é semanticamente verdadeira, se puder ser empregada para subministrar uma informação verificável sobre o mundo, ou seja, se tiver correspondência com os fatos.

Exemplificando, “o livro é vermelho” ou “a bola é amarela” são enunciados aos quais se podem aplicar o predicado verdadeiro, já que expressam um fato que efetivamente pode ocorrer.

Porém, outros enunciados como “os duendes são verdes e se apaixonam em abril” são semanticamente sem sentido porque se referem aos fatos que não podem ocorrer.

A verdade opera como critério ou condição de sentido, pois um enunciado não será semanticamente significativo se não for empiricamente verificável.

Por isso, positivismo lógico procura formular as condições semânticas de sentido, o que expressam as condições, nas quais um enunciado pode adquirir o estatuto de uma sentença científica, separando-se, assim, aqueles que não podem ser aceitos como integrantes de uma linguagem científica.


Essa regra de significação exposta estabelece que determinado enunciado somente poderá integrar o discurso da ciência, se ele for de algum modo verificável.

Por isso, são desprovidos de sentido os enunciados que extrapolam as fronteiras do discurso fático, por fronteiras do discurso fático, por não possuírem referência empírica (v.g. os enunciados sobre a justiça).

Alerta Warat[19] que, dentro dessa teoria surge a necessidade de se estabelecer dois níveis de linguagem (linguagem-objeto e metalinguagem) como forma de se evitar o paradoxo, que resulta do objeto de nossa reflexão a própria linguagem.

É célebre o exemplo da antinomia do mentiroso: um cretense afirma: “todo cretense é mentiroso”, onde ou o que ele diz é verdade, essa frase tem que ser falsa, pois quem a afirma é um mentiroso, ou o que ele diz é falso e, desse modo, a frase será verdadeira.  De qualquer forma, não conseguimos fugir do paradoxo[20].


Daí a noção de metalinguagem desenvolvida por Alfred Taski[21] segundo a qual a firmação citada não pertenceria ao conjunto objeto. Na linha da metalinguagem teria por objeto o estudo da estrutura da linguagem científica, determinando assim, as regras de precisão e de controle do discurso.


No campo da ciência jurídica Kelsen foi o primeiro a trabalhar com essas categorias, a linguagem-objeto e a metalinguagem, ainda que de forma implícita, ao estabelecer para a ciência do direito, a tarefa de efetuar uma descrição do direito positivo do Estado.


Assim as proposições descritivas assumiram uma metalinguagem que não poderiam ser confundidas com as regras de direito.

Desta forma, a validade da norma está sempre uma preocupação metalinguística, de se definir as propriedades que a mesma necessita para ser considerada válida (estabelecimento de critério que permitam decidir se qualquer enunciado ou proposição pertence ao conjunto formado pela linguagem objeto).

As insuficiências do positivismo lógico conduziram ao estudo da linguagem ordinária, com a preocupação de se dar maior ênfase ao nível pragmático de análise em contraposição ao que era feito pelo positivismo[22].

Há dois níveis elementares de significação de um termo, a saber: a significação de base e a significação contextual. “É proibido usar tanga” possui um significado padronizado, que nos permite entender que a ordem está relacionada com determinada peça do vestuário; porém o sentido da mensagem e a adoção de um comportamento frente à mesma variação conforme se trate de cartaz colocado na praia de Ipanema ou numa praia de nudismo (ou utilizar uma peça de banho maior ou não usar nada).

Porém ocorre que existem expressões cuja significação de base apresenta cuja significação de base apresenta “anemia significativa”, de modo que seu sentido designativo é sempre contextualmente construído.

São os chamados estereótipos entre os quais encontramos expressões como abuso de direito ou legítima defesa que, sob aparência de definições empíricas, encobrem juízos de valor.

Tais expressões como o abuso de direito e legítima defesa não são passíveis de definições abstratas daí o porquê as cargas valorativas possua elemento indispensável para a detecção das justificações e legitimações travestidas de explicações, quando se procura efetuar leituras ideológicas dos discursos jurídicos.

A vagueza é um problema ligado ao aspecto denotativo, ou seja, inexiste uma regra definida quanto à aplicação de um termo que é, por isso, impreciso. Exemplo célebre mencionado pelo Bertrand Russell[23] sobre o termo “calvo” quando inexistem regras que estabeleçam as condições necessárias para a utilização denotativa, não sendo possível decidir, na totalidade dos casos, os seus limites precisos.

Já ambiguidade que difere da vagueza, refere-se ao aspecto designativo, ocorrendo quando o termo utilizado possui mais de um subconjunto de propriedades designativas (como os homônimos, por exemplo, da palavra “manga”).


A análise das definições léxicas feitas pela filosofia da linguagem ordinária, postula uma técnica definitória chamada de definição de domínio que consiste no exame de diferentes contextos nos quais os termos podem ser empregados.


Às definições lexicográficas, cujo exemplo mais significativo é o dos termos existentes no dicionário opõem-se as definições especulativas, como é o caso do termo democracia que possui sentido denotativo incerto, dependente de critérios axiológicos adotados, o que corresponderia a uma opção entre várias definições lexicográficas.


O pensamento de Ludwig Wittgenstein[24] que, em sua crítica contundente contra as concepções que caracterizaram a filosofia da consciência, demonstra que a teoria da linguagem abraçada pela tradição, incorre em grave erro de base, na medida em que vem, ao longo dos anos, afirmando, de forma reducionista que a única, que a única, ou pelo menos, a principal função da linguagem é a função designativa ou descritiva.


Para Wittgenstein[25] não existe um mundo em si cuja estrutura possa ser conhecida pela razão do sujeito cognoscente, independentemente da mediação linguística.


Então, a linguagem não é mero instrumento de comunicação do conhecimento, esta é, antes de tudo, condição de possibilidade para a própria constituição do conhecimento.


Rejeitando-a concepção tradicional de linguagem, de base ontológica (a ideia de que as palavras partem das essências). Para Wittgenstein não existem essências e nem fronteiras definitivas entre o uso das palavras.

A significação das palavras não está estabelecida de modo definitivo, porém o fato de não ser possível conhecer todos os casos de aplicação de uma palavra não implica que ela não tenha sentido.

O primeiro passo é abandonar o ideal da exatidão da linguagem (mito filosófico), pois esse ideal completamente desligado de uso em situações concretas, carece de qualquer sentido.

É impossível se determinar a significação das palavras sem uma consideração do contexto socioprático, em que as mesmas são usadas, uma vez que os conceitos são intrinsecamente abertos, admitindo abertos, admitindo a possibilidade de aplicação aos casos não previstos, anteriormente (é no uso efetivo que a palavra ganha significação).

Entende Wittgenstein entende a linguagem como uma atividade humana como o andar (a relação entre a linguagem e a ação), que só pode ser compreendidas no contexto (formas de vida) em que está inserida.

Nesse sentido, introduz a noção de jogos de linguagem[26], pretendendo acentuar que, nos diferentes contextos, são seguidas diferentes regras, a partir das quais é possível se determinar o sentido das expressões linguísticas.

A semântica só atinge sua finalidade por meio da pragmática, pois o sentido das palavras só pode ser resolvido no contexto pragmático. Só se pode cogitar de significado quando há uma compreensão que é tida como verdadeira e outra que é falsa, o que só ocorre quando há regras para diferenciar ambas.

A mudança da postura de Wittgenstein a partir de sua primeira obra intitulada de "Investigações Filosóficas" é tão grande que se costuma falar que existem vários “Wittgensteins” (o I e II) sobre o assunto, há menção em Robert Alexy. Teoria de La Argumentación Jurídica. Madri: Centro e Estudios Constitucionales, 1997. p.64.

Acontece que, para Wittgenstein, o aprendizado de uma regra não implica sua aplicação automática, já que pressupõe um ato de liberdade.

Mesmo seguindo as mesmas regras, ninguém joga do mesmo modo, pois não se trata de reflexos condicionados. O seguir de uma regra significa, pois, adquirir uma determinada práxis de uma determinada (hábitos e costumes).

Ainda dentro dessa linha de superação do paradigma da filosofia da consciência situa-se o pensamento do filósofo alemão Jürgen Habermas[27], como desdobramento das investigações empreendidas por G. Frege[28], C. Pierce e pelo próprio Wittgenstein.

A filosofia de Habermas se desenvolve dentro do paradigma da comunicação, através da noção da razão comunicativa, que substitui a reflexão transcendental, solitária anterior à fala, pela configuração da ação e do discurso interior do processo comunicativo... Ela substitui o conceito de razão não processual, centrado no sujeito, por um conceito processual comunicativo, deduzido de uma lógica pragmática da argumentação, a qual se expressa através de uma compreensão descentralizada de mundo.

Nesse sentido, afirma Habermas: "Saltam aos olhos os novos instrumentos de representação e de análise que a filosofia do século XX empresta à semântica fregeana e a lógica pós-aristotélica, desenvolvida no século XIX".

Todavia, o elemento especificamente moderno, que atingiu todos os movimentos do pensamento, não reside tanto no método como nos motivos do pensamento. Quatro motivos caracterizam a ruptura com a tradição. Os tópicos podem ser caracterizados da seguinte maneira: pensamento pós-metafísico, guinada da linguística, de modo de situar a razão e a inversão do primado da teoria frente à prática, ou seja, superação do logocentrismo[29].

A passagem do paradigma da filosofia da consciência para o paradigma da filosofia da linguagem representou um corte, a partir do qual os sinais linguísticos, que serviam apenas como instrumento e equipamento das representações adquirem, como reino intermediário dos significados, uma dignidade própria. As relações entre linguagem e mundo, entre a proposição e o estado de coisas, substituem as relações de sujeito-objeto[30].

Nesse contexto, a "filosofia da comunicação[31]", considera insuficiente a posição semântica formal, exposta por Frege, para elucidar a questão da razão através da linguagem, uma vez que está limitada à relação que se estabeleceu entre linguagem e o mundo (função designativa), abstraindo sua dimensão pragmática, referente à relação entre os sujeitos, no momento em que se comunicam sobre algo no mundo.

É verdade que a guinada aconteceu inicialmente no interior dos limites do semanticismo, onde se pagou o preço das abstrações que tornaram impossível explorar plenamente o potencial de solução do novo paradigma.

A análise semântica permanece essencialmente uma análise de formas de proposição, principalmente das formas das proposições assertóricas ela prescinde da situação da fala, do uso de linguagem e de seus contextos, das pretensões, das tomadas da posição e dos papéis dialogais dos falantes, numa palavra prescinde da pragmática da linguagem, a qual iria deixar a semântica formal entregue um outro tipo de abordagem, a saber, à consideração empírica.

Segundo Habermas, a abstração semântica pode a linguagem, desfigurando-a, ao amputar o seu caráter autorreferencial, graças ao qual o ato que fala revela a intenção do falante.

O ouvinte pode deduzir, do conteúdo semântico do proferimento, o modo como a sentença proferida é utilizada, ou seja, pode saber qual é o tipo de ação realizado através dele. "As ações linguísticas interpretam-se por si mesmas, uma vez que possuem uma estrutura autorreferencial."

Habermas afirma que as três teorias do significado mais conhecidas são: a) a semântica intencionalista (de Grice, por exemplo); b) a semântica formalista (de Frege); c) a teoria do significado enquanto uso, cujo precursor foi o segundo Wittgenstein, são parciais, abordando apenas um dos aspectos do processo desse entendimento. Estas pretendem esclarecer o significado de uma expressão e uma única perspectiva: a) do que é pensado (intenção); b) do que é dito (aspecto textual); c) do uso em interações.

O agir comunicativo é um desdobramento da intuição de que o telos do entendimento habita a linguagem. Não é, pois, possível separar a questão fundamental da teoria do significado da questão referente ao contexto em que essa expressão pode ser aceita como válida. Na linguagem, as dimensões do significado e da validez estão ligadas internamente.

Desse modo, compreende-se um enunciado afirmativo, por exemplo, quando se sabe que tipo de razões um falante deveria aduzir, a fim de convencer um ouvinte, de que tem o direito de levantar uma pretensão de validade (verdade) para a sua frase.

Portanto, as condições de compreensão, são preenchidas na prática comunicativa cotidiana, induzem a um suposto jogo de argumentação no qual o falante, na qualidade de proponente, poderia convencer em ouvinte de que a pretensão de validade possivelmente problemática é justificada.

Após essa guinada epistêmica de semântica da verdade, não podemos mais considerar a questão de validade de uma proposição como se fora uma simples questão de nexo objetivo entre a linguagem e o mundo, completamente alheia ao processo de comunicação.

Cabem às reflexões filosóficas sobre a linguagem, cabe ressaltar ainda que a teoria da argumentação jurídica de Robert Alexy é devedora também das contribuições oriundas das teorias da linguagem normativa (metaéticas[32]), como por exemplo, as desenvolvidas por R. M. Hare e, por St. E. Toulmin, na medida em que, como o próprio Alexy reconhece, na base de uma teoria da fundamentação de enunciados normativos tem que estar uma teoria da linguagem normativa, pois, enfim deve-se primeiro saber o que os enunciados normativos são.

Interessa a Alexy a distinção estabelecida entre os significados descritivo e valorativo, das expressões morais, que correspondem às duas regras fundamentais da argumentação moral: o princípio da universalidade e o da prescritividade.

O princípio da universalidade é fundamentado pelo fato de todos os objetos possuírem as mesmas características relevantes devem necessariamente ser classificados do mesmo modo.  Ora, as expressões valorativas, como demonstra Hare, também têm essa mesma qualidade, uma vez que possuem, em si, a dimensão descritiva.

A designação de algo como bom está ligada à existência de certas características, que correspondem a determinado standard (critérios) referente ao significado descritivo do valor bom, não é também bom.


Ao afirmarmos que algo é bom é porque ele possui determinadas propriedades que, em razão do princípio da universalidade, nos obrigam a designar, como bons todos os objetos que tenham as mesmas características.


Assim, o fato de possuir as mesmas propriedades relevantes é a razão, doravante suficiente para que se afirme que algo é bom, estabelecendo-se, assim, uma conexão entre a afirmação de que algo é bom e a razão que temos para fazê-lo.


Essa conexão existe exatamente como regra moral que diz que o fato e algo ter determinadas qualidades signifique uma razão para designá-lo de bom.


É mister, então, se formular o princípio da prescritividade que nada mais é do que a regra de ouro (é o exemplo retirado do Novo Testamento, Mateus, 18:23[33]). Em relação à teoria de Toulmin interessa Alexy a questão sobre o motivo que permite que um conjunto particular de fatos reais seja uma boa razão para alguma conclusão ética particular.


Isso ocorre, devido à existência das regras de inferência, específicas dos argumentos morais, que possibilitam a passagem do plano das razões fáticas gerais a uma conclusão normativa.


Ao procurar demonstrar como é possível justificar as convicções morais, Alexy aceita como concepção fundamental a de que o discurso moral é uma atividade guiada por regras, rejeitando, desse modo, as posturas defendidas pelo emotivismo, pelo intuicionismo e no naturalismo.


A filosofia analítica trata da investigação da linguagem e suas relações com o real na virada do século XIX para o século XX. Através da análise lógica da linguagem, procurava esclarecer o sentido das expressões (conceitos, enunciados, uso contextual) e seu uso no discurso linguístico.


De acordo com essa corrente, muitos dos problemas filosóficos se reduziriam a equívocos e mal-entendidos originados do uso ambíguo da linguagem. Destacaram-se alguns nomes tais como o alemão Johann Gottlob Frege, o britânico Ludwig Wittgenstein e Bertrand Russell, John Langshaw Austin[34] e Gilbert Ryle.


O desenvolvimento da filosofia da linguagem e influenciou filósofos de outros campos da filosofia, que passaram a atentar mais para o fenômeno da linguagem. Um dos filósofos contemporâneos que se vale dos resultados da filosofia analítica é Jürgen Habermas, pertencente à Escola de Frankfurt[35].


O movimento da filosofia analítica passou por várias etapas, nas quais se voltou para as questões específicas em relação à linguagem. O reconhecimento da importância do sentido e a linguagem que desempenham o papel fundamental na filosofia.

Essa preocupação começou com Frege que era lógico e matemático que percebendo que a linguagem comum contém expressões, propôs a constituição de uma linguagem formal que restringisse os inconvenientes e imprecisões da linguagem comum.

Bertrand Russell desenvolveu a análise da linguagem chegando à teoria do atomismo lógico. Segundo essa teoria, a cada proposição simples, que ele chama de proposição atômica, corresponde um, fato simples, o fato atômico.


Por exemplo: "O livro azul" é uma proposição atômica, pois consiste num enunciado simples que indica que determinada coisa tem determinada propriedade ou está em determinada relação.

Na linguagem[36], essas proposições podem articular formando as proposições compostas ou moleculares. Por exemplo: "O livro é azul e pertence a Paulo".

O problema, de acordo com Russell, é que, no uso da linguagem comum, na maioria das vezes não paramos para fazer análise da linguagem. Nós tendemos aceitar as proposições em seu conjunto, como um todo, e não analisá-las em suas partes.

Isso pode levar a equívocos que conduzem às falsas questões recolhidas pela filosofia. Quando construímos uma proposição causal como "A casa pegou fogo porque além dormiu com o cigarro aceso" pode ser que, embora as duas proposições possam estar corretas.

Com isso, Russell concluiu que ou a lógica formal não consegue captar a riqueza da linguagem comum, que traduz noções confusas como causalidade, finalidade etc., que criam problemas filosóficos.

Desta forma, muitas dos problemas filosóficos seriam simplesmente frutos de equívocos e imprecisões da linguagem comum. Ludwig Wittgenstein[37] propôs que seria necessário fazer uma "terapia da linguagem"; ao final da quais muitos dos problemas filosóficos se mostrariam como falsos problemas, como simples problemas de linguagem.

O percurso filosófico de Wittgenstein pode ser dividido em duas grandes fases. Em sua primeira fase no Tractatus logico-philosophicus, intensificou a busca de uma estrutura lógica que pudesse dar conta do fracionamento da linguagem.

A estrutura da linguagem deveria corresponder à realidade dos fatos. Em suas palavras: “um estado de coisas é pensável, quer dizer: podemos fazer uma figura dele”. A totalidade dos pensamentos verdadeiros é uma figura do mundo.

Já a segunda fase do filósofo britânico, se afastou dessa compreensão de que a verdade da proposição deve ser verificada na experiência do mundo real, e passou a afirmar a impossibilidade de uma redução legítima entre um conceito lógico (da linguagem) e um conceito empírico (da realidade).

Em outras palavras, a linguagem não é captura conceitual da realidade, isto é, não é a reprodução do objeto, mas sim, uma atividade, um jogo. E os jogos de linguagem adquirem o seu significado no uso social, nos diferentes modos de ser, e de viver no qual a fala está inserida.

A linguagem comum possui uma riqueza e espécies e de tipos de frases que são utilizadas em situações específicas (mandar, pedir, relatar, descrever, inventar, agradecer e, etc.,) e formam os "jogos e linguagem" e não individualmente (vai desde o discurso acadêmico até a gíria utilizada pelos jovens e marginais).

Com essa perspectiva, Wittgenstein abandonou a intenção de fazer da linguagem comum a "pintura da realidade" como ele mesmo havia dito. O termo linguístico não poderia mais ser explicado por meio de uma análise lógica, mas apenas a partir de seu uso social.


Na sua obra "Investigações Filosóficas” o filósofo explicou: "A linguagem é como uma caixa de ferramentas". Para ele, não se trata de considerar se é falsa ou verdadeira, mas de saber usá-la. A tarefa da filosofia é usar adequadamente a linguagem, sabendo seus limites e calando-se diante do que não pode ser falado.

A Escola de Frankfurt é o nome dado ao grupo de pensadores alemães do Instituto de Pesquisas Sociais fundado em 1920. Sua produção ficou conhecida como teoria crítica. Entre eles, se destacaram Theodor Adorno, Max Horkheimer[38], Walter Benjamin, Herbert Marcuse[39], Erich Fromm, Jürgen Habermas.

Apesar das diferenças de pensamento entre todos esses pensadores e estudiosos, identificamos nestes a preocupação comum em estudar os variados aspectos da vida social de modo a compor uma teoria crítica da sociedade como um todo.


Para tanto, investigaram as relações existentes entre os campos da economia, da psicologia, da história e da antropologia. Os pontos de partida fundamentais de suas reflexões foram a teoria marxista (elaborando uma leitura original a partir dessa tese) e a teoria freudiana que trouxe à tona elementos novos sobre o psiquismo.


A Escola de Frankfurt concentrou seu interesse na análise da sociedade de massa, termo que busca caracterizar a sociedade atual, na qual o avanço tecnológico é colocado à serviço da reprodução da lógica capitalista, enfatizando o consumo e a diversão como formas de garantir o apaziguamento e a diluição dos problemas sociais.


Um tema muito presente é a crítica da razão, e de acordo com Max Horkheimer e Adorno, a razão iluminista, que visava a emancipação dos indivíduos e o progresso social, terminou por levar a uma maior dominação das pessoas em virtude justamente do desenvolvimento tecnológico-industrial.


Horkheimer acreditava que o problema estava na própria razão controladora a instrumental, que busca sempre a dominação, tanto da natureza quanto do próprio ser humano.


Na obra "A dialética do esclarecimento" de 1947 Adorno e Horkheimer tecem duras críticas ao iluminismo, que estimulou o crescimento dessa razão controladora e instrumental que predomina na sociedade contemporânea.


Denunciam ainda o desencantamento do mundo, a deturpação das consciências individuais, a assimilação dos indivíduos ao sistema social dominante.


Um dos fundadores da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno desenvolveu crítica ao projeto iluminista da modernidade, que teria desembocado na "razão instrumental", uma racionalidade que burocratiza e dirige as vidas e consciências dos indivíduos.


Adorno elaborou o conceito de "indústria cultural" para referir-se à banalização comercial da cultura pelos meios de comunicação de massa: cinema, revistas e televisão e, etc.


Denunciaram Horkheimer e Adorno a morte da razão crítica, asfixiada pelas relações de produção capitalista. Se denúncias semelhantes já haviam sido feitas no campo do marxismo, o que há de característico nos filósofos da Escola de Frankfurt é a desesperança em relação à possibilidade de transformação dessa realidade social.


Isso se deveria a uma ausência de consciência revolucionária no proletariado (trabalhadores) que teria sido assimilado, absorvido pelo sistema capitalista, seja pelas conquistas trabalhistas alcançadas, seja pela alienação de suas consciências promovida pela indústria cultural.


Indústria cultural é um termo difundido por Adorno e Horkheimer para designar a indústria da diversão vulgar veiculada pela televisão, rádio, revistas, jornais, músicas e propagandas e, etc.


Através da indústria cultural e da diversão se obteria a homogeneização dos comportamentos, a massificação das pessoas.


A falta de perspectiva de transformação social levou Adorno a se refugiar na teoria estética, por entender, que o campo da arte é o único reduto autêntico da razão emancipatória e da crítica à opressão social.


Walter Benjamin[40] se distingue de Adorno e Horkheimer por uma postura mais otimista no que se refere à indústria cultural. Em seu texto "A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução" se mostra esperançoso com a possibilidade de que a arte, a partir do desenvolvimento das técnicas de reprodução (discos, reprografia, e processos semelhantes), se torne acessível a todos.


Enquanto, na visão de Adorno e Horkheimer, a cultura veiculada pelos meios de comunicação de massa não permite que as classes assalariadas assumam uma posição crítica em relação à realidade, Benjamin[41] acredita que a arte dirigida às massas pode servir como instrumento de politização.


Além disso, desenvolveu reflexões nas quais buscou conciliar a teoria marxista com a tradição judaica, dando origem a um pensamento de difícil penetração, ainda que de grande beleza literária.

Herbert Marcuse desenvolveu uma obra marcada significativamente pelas teorias freudiana e marxista. Em "Eros e civilização", retornou o tema desenvolvido por Freud da necessidade de repressão dos instintos para a manutenção e o desenvolvimento da civilização.

De acordo com Freud[42] a história social do homem é a história de sua repressão, do combate ao livre prazer em prol do trabalho, do adiamento do princípio do prazer para atender ao princípio da realidade. Sem essa, renúncia, a vida social seria impossível.

Marcuse considera Freud tem razão em diagnosticar esse fato. Porém, discorda do psicanalista quando apresenta essa situação como eterna, ou seja, que é impossível uma civilização não repressiva.


Marcuse defendeu que as imposições repressivas são antes produtos de uma organização histórico-social específica do que uma necessidade natural e eterna.


Ele apontou que a possibilidade de civilização menos repressiva pode surgir do próprio desenvolvimento tecnológico, que criaria condições para a libertação em relação à obrigação do trabalho e a consequente ampliação do tempo livre.


No entanto, isso não se dará segundo Marcuse, sem a intervenção do ser humano para reorientar o rumo da trajetória histórica possibilitada por esse desenvolvimento.


Nesse ponto, a tarefa da filosofia seria anunciar essa possibilidade. Se isso não ocorrer, teremos o contrário, ou seja, a perpetuação do desenvolvimento tecnocientífico a serviço da dominação e da homogeneização dos indivíduos, criando o que ele mesmo denominou o homem unidimensional, capaz de criticar a opressão e construir alternativas futuras.


Habermas propõe um novo conceito de razão, a chamada razão comunicativa como forma de retomar o projeto emancipatório da humanidade fundado em novas bases.

O mais influente dos filósofos da atualidade da Escola de Frankfurt, Habermas discorda de Adorno e Horkheimer no que se refere aos conceitos centrais da análise realizada por esses dois filósofos: razão, verdade e democracia.


Assim, de acordo com essa análise Adorno e Horkheimer chegaram a um impasse quanto à possibilidade de uma razão emancipatória, já que a razão estaria asfixiada pelo desenvolvimento do capitalismo.


De acordo com Habermas, essa é uma posição perigosa em filosofia, pois poderia conduzir a uma crítica radical da modernidade e, em consequência, da razão, que levaria ao irracionalismo.


Em seu artigo "Modernidade versus pós-modernidade" enfatizou esse ponto, afirmando, contra a tendência ao irracionalismo presente na chamada filosofia pós-moderna, que "o projeto da modernidade ainda não foi cumprido".


Ou seja, que o potencial para a racionalização do mundo ainda não está esgotado. Por essa razão, Habermas é descrito como o último grande racionalista.


O referido filósofo também discorda dos resultados pessimistas da análise de Adorno e Horkheimer, segundo a qual a razão não mais se realizaria no mundo, porque o capitalismo, em sua complexidade, teria conseguido narcotizar a consciência do proletariado e, dessa forma, perpetuar-se como sistema.


Para Habermas, existem alguns pontos falhos nessa análise cuja identificação do proletariado como agente da transformação social. Habermas propõe então, como nova perspectiva, outro conceito de razão: a razão dialógica que brota do diálogo e da argumentação entre os interessados numa determinada situação.

É a razão que surge da chamada ação comunicativa, do uso da linguagem como meio de conseguir o consenso. Para tanto, é necessária uma ação social que fortaleça as estruturas capazes de promover as condições de liberdade e de não-constrangimento imprescindíveis ao diálogo.

O conceito de verdade também se modifica em função dessa nova perspectiva. Habermas propõe o entendimento da verdade não mais como adequação do pensamento à realidade, mas como fruto da ação comunicativa.


Não como verdade subjetiva, mas como verdade intersubjetiva, que surge do diálogo entre os indivíduos, ao qual se aplicam algumas regras, clareza de argumentação e a falta de constrangimentos de ordem social.


Razão e verdade deixam de ser, assim, conteúdos ou valores absolutos e passam a ser definidos consensualmente. E sua validade será tanto maior quanto melhores forem as condições nas quais se dê o diálogo, o que se consegue com o aperfeiçoamento da democracia.


O pensamento de Habermas incorpora e desenvolve reflexões propostas pela filosofia da linguagem. A ênfase dada por Habermas à razão comunicativa pode ser entendida como uma maneira de tentar “salvar” a razão, que teria chegado a um beco sem saída.


Assim, se o mundo contemporâneo é regido pela razão instrumental, conforme enunciaram os filósofos que o antecederam na Escola de Frankfurt, para Habermas caberia à razão comunicativa, enfim, o papel de resistir e reorientar essa razão instrumental.


A pluralidade dos caminhos e das culturas e o projeto pós-moderno têm como ponto comum a crítica a modernidade, entendimento como projeto de emancipação humano-social através do desenvolvimento da razão.


Esses pensadores partem da constatação dos desastres sociais e ambientais aos quais a sociedade contemporânea chegou. Ocorrendo a banalização da miséria, desigualdades sociais extremas, catástrofes ambientais, guerras, dominação dos países economicamente desenvolvidos sobre os demais e a situação de barbárie que se verifica em algumas regiões do planeta.


Essa corrente de pensadores identifica, como o fizeram Adorno e Horkheimer o fenômeno da assimilação dos indivíduos ao sistema, isto é, sua absorção pelo capitalismo, um fenômeno totalitário que se dá pela narcotização das consciências por intermédio da indústria cultural, conforme vimos anteriormente, e que alcança todos os setores da vida social.


Essa tendência se fortaleceu particularmente na segunda metade do século XX, após os sinais de degeneração das experiências, o chamado socialismo autoritário.


Com a falência do socialismo como modelo alternativo ao sistema capitalista, o mundo teria se curvado à onipotência do status quo, sem qualquer perspectiva de transformação.
De uma forma geral, esse é o quadro herdado pelos filósofos da pós-modernidade.


Desta forma, o projeto do pós-modernismo designa o fim da modernidade, ou seja, a falência historicamente constatada de que a razão possa favorecer a emancipação humana.


E sem essa perspectiva de uma transformação social, principalmente aqueles em que se verifica maior racionalização rumo ao controle dos indivíduos, denunciando as formas de opressão que os acompanham em sua vida cotidiana.

Essa denúncia é feita de forma fragmentária, isto é, aborda aspectos variados e singulares do cotidiano e não se estrutura numa visão de conjunto, uma vez que a filosofia pós-moderna, abandonou a pretensão de totalidade que orientava o pensamento moderno.

Os filósofos pós-modernos desenvolvem uma visão fragmentada da vida cotidiana e enxergam os indivíduos também fragmentados. Uma visão preocupada em captar singularidades, as particularidades e as diversidades do real.
Seu mérito seria a valorização das pluralidades culturais pelo respeito à diferença do outro.

A filosofia pós-moderna se caracteriza, portanto, por um ceticismo teórico e prático e se aproxima do irracionalismo, devido à sua crítica ao desenvolvimento da razão no mundo moderno, e do anti-humanismo (abandono do sujeito), por entender que a ação humana está submetida aos mecanismos de controle derivados da estrutura socioeconômica.

O traço que unifica os filósofos pós-modernos é, enfim, a debilitação das esperanças que um dia dominaram o mundo moderno de compreensão e de transformação conjunta da vida social.

Diante das frustrações históricas de transformação, a sensação é que chegamos a um ponto em que o controle da economia global está fora de nosso alcance e, diante disso, os grandes projetos emancipatórios, que um dia orientaram as iniciativas coletivas, perderam o sentido.

No entanto, as questões cruciais da vida humana continuam esperando respostas vigentes. Devem ser respostas muito mais complexas do que aquelas pensadas em momentos anteriores, dadas as novas condições de desenvolvimento econômico, social e tecnológico.

Entre os pensadores pós-modernos mais significativos estão Michel Foucault, Jean Baudrillard[43], Jacques Derrida e Jean-François Lyotard[44]

Foucault trabalhou em sua obra aspectos da dominação social presentes nas diversas instituições tais como escolas, presídios, hospícios e hospitais. Desenvolve, a ideia de micropoderes espalhados por toda estrutura social.


Segundo o filósofo francês as sociedades modernas apresentam uma nova organização de poder que se desenvolveu a partir do século XVIII.


O poder não está concentrado no setor político está disseminado por vários âmbitos da vida social, este se fragmentou em micropoderes e se tornou muito mais eficaz.


Ao invés de deter apenas o macropoder concentrado no Estado, Foucault analisou esses micropoderes que se espalham pelas mais diversas instituições da vida social.


Adotando essa perspectiva de análise, conhecida como microfísica do poder Foucault afirmou que “o poder está em toda parte, não porque englobe tudo mas sim, porque provém de todos os lugares.”


Esbarramo-nos a todo tempo com os pequenos donos dos poderes periféricos que são detentores de micropoderes. O notável objetivo de Foucault foi colocar em evidência as estruturas do poder, tendo por inspiração Nietzsche.

Tanto quanto esse filósofo Foucault afirmou a relação entre saber e o poder. Enfim, a definição do que é bom, do que é verdade, do que é sadio depende das instâncias nas quais o poder se encontra.

Como o poder se encontra em múltiplos espaços, a resistência a esse, não caberia segundo o filósofo, a um partido ou uma classe revolucionária, pois estes se dirigiriam a um único foco de poder.


Seria necessário o desenvolvimento da ação de múltiplos pontos de resistência. Jacques Derrida[45] é também um crítico da razão ocidental. Apontou que para toda a filosofia ocidental partilha a ideia de um centro, de algo que unifica e estrutura a sua construção teórica como Deus, homem, verdade que são noções que estruturam o entendimento, que chama de logocentrismo.


Ele chama a atenção para o fato de que a cada um desses centros corresponde a uma antítese, o seu oposto: Deus-diabo, homem-mulher, verdade-mentira. Essas oposições teve origem na Grécia, na oposição do logos (razão) e mito que fora preservada pela filosofia ocidental.


Derrida pretendeu desconstruir o conceito de logos, negar sua supremacia em relação ao seu par lógico, sem o qual ele não teria sentido, porque o pensamento filosófico ocidental teria atribuído um valor absoluto a um dos elementos que compõem essa dualidade, criando verdades absolutas.
Derrida não só nega essas verdades, como também identifica nestas a condição de construções culturais. Então propõe a desconcentração desses centros filosóficos que seriam especialmente a noção de razão e de sujeito.


E o faz a partir da análise da linguagem, que ele acredita ser a estrutura essencial da cultura. A desconstrução é, portanto, uma análise que pretende mostrar como se dá a construção de certas noções, por exemplo, o conceito de razão e os valores a estes associados, como depois elas passam a ter função predominante na cultura ocidental e, por fim, como elas podem ser usadas como forma de dominação.


Jean Baudrillac dedica seus estudos à compreensão da sociedade de massa. Analisa aspectos como a indústria cultural o fenômeno do consumismo que promovem a massificação da sociedade. Segundo o filósofo, a sociedade atual não pode mais ser compreendida a partir de sua estruturação em classes sociais, pois essas classes perderam a sua identificação como tal.


No processo de massificação ocorre uma neutralização das perspectivas de transformação social, e os indivíduos aderem à banalização da vida cotidiana.


Essa adesão é reforçada pelo que ele qualificou a hiper-realidade, que se refere à capacidade da mídia de criar uma realidade virtual, que substituiria, para os indivíduos, a própria realidade.


A sociedade do espetáculo, da vida virtual veiculada pelos meios de comunicação. Habermas partindo de John Dewey da pressuposição de que as ideias não são princípios últimos, e, sim, bons lampejos propostas inteligentes numa discussão contínua, então são duas as ideias que se unem na obra de Habermas.


A ideia em primeiro lugar é o conceito de comunicação a não o da ação (Weber, Parsons) e não o da interação (Mead) ou até mesmo o da “consciência” (Durkheim) por meio do qual a sociedade se distingue de outras entidades.


Nexos sociais são vínculos comunicativos, e sistemas sociais são integrados por agir comunicativo. Nesse ponto o pensamento Habermas se assemelha ao seu opositor Niklos Luhmann, o qual também vê o verdadeiro mérito da obra de Habermas na superação do sistema aristotélico do fim-meio pelo conceito da comunicação.


Habermas se orienta pelo entendimento comunicativo, Luhmann aposta no conceito sistema relativo de autopoiese comunicativa.


Os protagonistas agentes têm que se entender em responsabilidade própria, enquanto para a autoprodução de sistemas basta o mero cumprimento da função social por meio de comunicação contactável.


Por isso, também o conceito de agir comunicativo, que deve ser atribuível a indivíduos humanos do mesmo modo como a atividade finalista instrumental é imprescindível para Habermas.


Exatamente esse conceito do agir individualmente atribuível é conscientemente evitado por Habermas, a fim de substituí-lo por operação comunicativa como elemento último de sistemas sociais (que não pode ser mais decomposto).


Na sociedade moderna cabe ao meio jurídico um papel-chave muito ambivalente na repressão e no desencadeamento de racionalidade comunicativa (é retomada do Iluminismo e de sua grande revolução de 1789).


Enfim, a linguagem em sentido genérico, pode ser definida como sistema de signos convencionais que pretende representar a realidade e que é usado na comunicação humana.


Distinguem-se em algumas teorias, a língua empírica, concreta da linguagem como estrutura lógica, formal e abstrata, subjacente a todas as línguas. Teorias como a de Chomsky, por exemplo, buscam nesse sentido a determinação de universais linguísticos que constituiriam precisamente essa estrutura.


Algumas teorias valorizam mais o aspecto comunicacional da linguagem, considerando que isso define sua natureza; outras definem a linguagem como um sistema de signos cujo propósito é a referência ao real, a representação da realidade.


A linguagem torna-se um conceito filosoficamente importante sobretudo na medida em que, a partir do pensamento moderno, passa-se considerá-la como elemento estruturador da relação do homem com o real.


A partir daí afirma-se mesmo a natureza intrinsecamente linguística do pensamento, discussão essa que permanece em aberto até hoje na filosofia.


Igualmente, uma vez que toda teoria tem necessariamente uma formulação linguística e se constrói linguisticamente, o problema da natureza da linguagem e do significado passa a ser de grande importância para a epistemologia.


A investigação filosófica sobre a linguagem já era encontrada nos textos de Platão, Aristóteles e nos estoicos.


Aristóteles ocupou-se de questões de lógica, das categorias e do significado. Ele separou todas as coisas nas noções de gênero e espécie. Ele defendeu que o significado de um predicado é estabelecido através da abstração das similaridades entre várias coisas individuais.


Tal teoria deu origem ao nominalismo, na Idade Média, mas há influência aristotélica também na posição oposta, ou seja, o realismo sobre os universais.


Dentre os medievais, Pedro Abelardo[46] foi notável por antecipar muitas ideias modernas sobre a linguagem. O debate sobre o significado dos universais interessou a muitos filósofos. Qual significado de pedra, por exemplo?


Para os realistas a palavra refere-se a uma entidade abstrata (a teoria das formas ou ideias de Platão é um clássico exemplo de realismo). Para os nominalistas, a palavra é som comum que usamos para designar cada pedra.


Embora muitos filósofos tenham sempre discutido a linguagem, esta começou a desempenhar papel central na filosofia no final do século XIX. No século XX, a filosofia da linguagem tornou-se tão central que em alguns círculos da filosofia analítica que os problemas da filosofia em geral foram tratados como problemas da filosofia da linguagem.


As teorias da referência investigam como a linguagem interage com o mundo. Frege defendeu uma teoria da referência na qual uma expressão tem sua referência determinada pelo sentido ou modo de apresentação, isto é, pela maneira como o referente é apresentado ao falante.


Em contraste, e em resposta ao idealismo de Bradley, Bertrand Russell criou uma teoria da referência direta.


A teoria da referência mediada de Frege difere da teoria da referência direta de Russell no tratamento dos nomes logicamente próprios. Na explicação de Russell, o único significado dos mesmos são seus respectivos referentes. Na explicação de Frege, qualquer expressão referencial tem um sentido e uma referência.


Nomes correferenciais, como "Samuel Clemens" e Mark Twain", causam problemas para a visão diretamente referencial em geral (embora não causem problemas especificamente para a teoria da referência direta de Russell, pois na mesma nem todos os nomes próprios gramaticais são nomes logicamente próprios).

A teoria de Frege, por sua vez, encontra dificuldades na articulação e especificação das características dos sentidos.

Os campos que examinam as condições sociais nas quais os significados e as linguagens emergem são chamados de metassemântica. A etimologia e a estilística são exemplos de áreas de investigação metassemânticas.

Na sociologia, o interacionismo simbólico é baseado na intuição que a organização social humana é baseada quase inteiramente sobre o uso de significados. Em consequência, qualquer explicação de uma estrutura social, como uma instituição, precisaria explicar os significados partilhados que criam e sustentam a estrutura.


Outra questão importante sobre mente e linguagem é em que medida a linguagem influencia o pensamento, e vice versa. Há várias perspectivas e sugestões. Por exemplo, a hipótese de Sapir-Whorf sugere que a linguagem limita a extensão na qual os membros de uma comunidade linguística podem pensar sobre os temas. (Há um paralelo dessa hipótese em 1984, romance de George Orwell.).


Alguns pontos são mais centrais da filosofia o que nos leva para análise explícita de problemas ligados à linguagem. Não seria realista esperar uma unidade compacta sobre a linguagem. Embora não exista razão, para que o filósofo não utilize suas ferramentas anal´ticas em ação para trabaljar com conceitos básicos ligados a linguagem.


A tendência, entretanto, tem sido se concentrar nos conceitos semânticos, como o da significação linguística e seus cognatos, identidade de significações e, etc. E, isso ocorre devido em parte ao fato de muitas dessas preocupações porque o fato de certa palavra ter certa significação talvez parece misterioso e, nesse sentido frequentemente a origem da palavra dá azo a reflexão filosófica.



Seria ilusório sugerir que a filosofia da linguagem, mesmo como é praticada pelos filósofos analíticos, esteja limitada à análise conceptual, ao esclarecimento dos conceitos básicos referentes à linguagem. Há várias outras tarefas que os filósofos tipicamente se impõem. É o caso da classificação de atos linguísticos, "usos" ou "funções" da linguagem, tipos de indefinição, tipos de termos, várias espécies de metáforas.


Existem ainda estudos sobre o papel da metáfora na ampliação da linguagem; sobre as inter-relações entre linguagem, pensamento e cultura; e sobre as peculiaridades do discurso poético, religioso e moral.


A criação de linguagens artificiais tem sido sugerida para vários propósitos. Há meticulosas investigações sobre as peculiaridades de determinados tipos de expressões, como os nomes próprios e as expressões referentes de plural; e de determinadas formas gramaticais, como a forma sujeito-predicado.


Alguns desses problemas se situam na fronteira entre a Filosofia e disciplinas mais especiais e todos eles poderiam ser tratados em uma ou outra dessas disciplinas. Assim, a psicologia poderia assumir a tarefa de distinguir entre diferentes tipos de comportamento lingüístico e poder-se-ia esperar que a linguística descritiva fornecesse classificações de tipos de expressões.


Mas, se esses problemas pertencem, em princípio, às disciplinas mais especiais, estes pertencem aos seus fundamentos; e a Filosofia tem tido, tradicionalmente, muitas relações com os problemas de elevado nível nas ciências, especialmente quando essas ciências estão nas fases iniciais de construção.


O filósofo da linguagem não se limita a perguntar-se qual o sentido da palavra em si. O seu labor se refere à análise dos conceitos que são habitualmente usados para explicar a estrutura e o funcionamento da linguagem.


Cogita-se habitualmente de conceitos "semânticos", do grego logos semantikos, ou seja, um discurso ou pensamento referente aos sinais. A palavra "semântica" será usada de maneiras diferentes em linguística e em lógica. Em linguística, para se referir à teoria das relações semânticas (sinonímia, homonímia, polissemia) e, em lógica, para indicar a teoria do modo como os sinais se referem aos objetos.


A filosofia da linguagem situa-se na fronteira entre a lógica e a linguística, e busca sobretudo analisar as argumentações a favor e contra as diversas visões do sentido que são a cada momentos propostas.


Seu labor é muitas vezes uma investigação dos erros da argumentações dos outros, dos paradoxos que surgem em certas teses, e das possíveis contra-argumentações a essas teses.


Portanto, a análise da argumentação é um pré-requisito indispensável para se iniciar o estudo da filosofia e, de modo particular, da filosofia da linguagem.

Referências

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[1]Górgias (485 a.C.- 380 a.C.) chamado também de niilista, foi um retórico e um filósofo grego, natural de Leontinos, na Sicília. Juntamente com Protágoras de Abdera formou a primeira geração de sofistas. Como outros sofistas estavam continuamente mudando de cidade, praticando e dando demonstrações públicas de suas habilidades em diversas cidades, e nos grandes centros como Olímpia e Delfos, cobrando por suas apresentações e aulas. Uma característica especial de suas aparições era de ouvir questões de plateia sobre todos os assuntos e respondê-las sem qualquer preparo. Seu principal legado foi ter levado a retórica desde sua Sicília natal para a Ática, e contribuir com a difusão do dialeto ático como idioma da prosa literária.
[2] Os sofistas se compunham de grupos de mestres que viajavam de cidade em cidade realizando aparições públicas para atrair estudante, de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação. O foco central de seus ensinamentos concentrava-se no logos ou discurso, com foco em estratégias de argumentação. Os mestres sofistas alegavam que podiam melhorar seus discípulos ou, em outras palavras, que a "virtude" seria passível de ser ensinada. Protágoras, Górgias e Isócrates estão entre os primeiros sofistas conhecidos. Diversos sofistas questionaram a então sabedoria recebida pelos deuses e a supremacia da cultura grega (uma ideia absoluta à época). Argumentavam, por exemplo, que as práticas culturais existiam em função de convenções ou nomos e que a moralidade ou imoralidade de um ato não poderia ser julgada fora do contexto cultural em que aquele ocorreu. Tal posição questionadora levou-os a serem perseguidos, inclusive, por aqueles que se diziam amar a sabedoria: os filósofos gregos. A conhecida frase: "o homem é a medida de todas as coisas" surgiu dos ensinamentos sofistas. Uma das mais famosas doutrinas sofistas é a teoria do contra-argumento. Eles ensinavam que todo e qualquer argumento poderia ser refutado por outro argumento, e que a efetividade de um dado argumento residiria na verossimilhança (aparência de verdadeiro, mas não necessariamente verdadeiro) perante uma dada plateia. Os sofistas foram considerados os primeiros advogados do mundo, ao cobrar de seus clientes para efetuar suas defesas, dada sua alta capacidade de argumentação. São também considerados por muitos os guardiões da democracia na antiguidade, na medida em que aceitavam a relatividade da verdade. Hoje, a aceitação do ponto de vista alheio é a pedra fundamental da democracia moderna. Na Grécia clássica, os sofistas foram os mestres da retórica e oratória, professores itinerantes que ensinavam sua arte aos cidadãos interessados em dominar melhor a técnica do discurso, instrumento político fundamental para os debates e discussões públicas, já que na pólis grega as decisões políticas eram tomadas nas assembleias.
Foram contemporâneos de Sócrates, Platão e Aristóteles, foram combatidos por tais filósofos, que condenavam o relativismo dos sofistas e sua defesa da ideia de que a verdade é resultado da persuasão do consenso entre os homens. A metafísica se constituiu assim, nesse momento, em grande parte em oposição à sofística (que se caracteriza pela preocupação com questões práticas e concretas da vida da cidade, pelo relativismo em relação à moral e ao conhecimento, pelo antropocentrismo, pela valorização da retórica e da oratória como instrumentos da persuasão que caracterizava a função do sofista e, em consequência, pelo conhecimento da linguagem e o domínio do discurso, essenciais para o desenvolvimento da argumentação).
[3]Crátilo foi um filósofo grego, discípulo de Heráclito e Éfeso. As datas tanto de nascimento e morte de Crátilo não são conhecidas. No diálogo Crátilo, Platão apresenta-o como sendo mais jovem que Sócrates. Foi mestre de Platão, antes de Sócrates, segundo Aristóteles (Metafísica, I, 6), ou depois, segundo Diógenes Laércio (III,6). Crátilo leva ao extremo o conceito heraclítico de fluxo (panta rei: "tudo flui") e de devir, afirmando que não só não se pode mergulhar duas vezes do mesmo rio mas nem mesmo uma única vez, porque a água que molha a ponta do pé não será a mesma que molha o calcanhar. Da mesma forma, pensava que fosse impossível dar um nome às coisas, pois, estando estas em constante devir, não seriam mais aquelas. Limitava-se portanto a apontá-las. Daí se segue suas teses de incognoscibilidade do real, que antecipa de certa forma o pensamento cético.

[4] A verdade em Crátilo traduz que a dialética está sempre presente na filosofia de Platão. Sua argumentação não segue os padrões da lógica formal criada por Aristóteles, que investiga a força ou sentido de certas palavras, sempre a partir de modelos de proposições ou enunciados. No diálogo de Platão, percebe-se a força argumentativa, uma preocupação com a verdade que o distingue dos sofistas. A dialética do perguntar e do responder defende-se de raciocínios falsos, dos sofismas, prestando atenção não só às palavras, mas principalmente ao problema ou à realidade em debate. Em Crátilo, a argumentação de Sócrates parte do seguinte: há proposições verdadeiras e falsas e as proposições são compostas de nomes. Assim, as partes de uma proposição verdadeira devem ser verdadeiras. A seguir, Sócrates desloca a questão a questão da verdade e da mentira relacionada à proposição para o exame da função da linguagem.  O objetivo do nome é ser instrumento do falante para um determinado fim. Ao formador de nomes, o nomoteta, o legislador caberá configurá-los com sílabas e letras, com sons, naturalmente adequados à coisa que nomeia. Ao dialético, porém, compete distinguir julgar se uma linguagem está bem ou não. Mas qual é a função da linguagem? É a de simplesmente nomear esta ou aquela entidade ou uma maneira de nomear coisas diferentes? Platão esclarece ao dizer que um nome é correto quando quem o atribui expressa a relação entre a natureza da coisa e a forma do homem do nome em letras e sílabas. Não importam as sílabas e as letras usadas desde que a propriedade do objeto seja reproduzida. Assim sendo, a questão da verdade da exatidão do nome torna-se o problema da verdade, do conhecimento e do significado da linguagem. É nesta última que Platão procura o meio eficaz e verdadeiro para dizer a essência das coisas.

[5] Interessante é ressaltar que o estudo do pensamento e da linguagem é uma das áreas da psicologia em que é muito relevante ter-se uma clara compreensão das relações interfuncionais existentes. Posto que não poderemos responder a nenhuma das questões mais específicas deste domínio e nem mesmo levantá-las. O ponto de vista segundo o qual o som e o significado são dois elementos separados com vidas divorciadas afetou gravemente os estudos sobre a linguagem, o fonético e o semântico.  A função primordial da linguagem é a comunicação, intercâmbio social. Ao estudar-se a linguagem por meio da análise em elementos, dissociou-se também esta função da função intelectual do discurso. Tratavam-se ambas como se fossem duas funções separadas, embora paralelas, sem prestar atenção às suas interrelações estruturais e evolutivas; contudo, o significado das palavras é unidade de ambas as funções da linguagem. É axioma da psicologia científica que a compreensão entre espíritos é impossível sem qualquer expressão mediadora.  Na ausência de um sistema de signos, linguísticos ou não, só é possível o mais primitivo e limitado tipo de comunicação.

[6] Platão iniciou o debate apresentando a famosa máxima de Heráclito onde afirmou que tudo passa e nada permanece, e compara o que existe a uma corrente de rio, para concluir que ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas (Crátilo, 402a). É preciso observar que Crátilo é, sem dúvida, o diálogo mais irônico de Platão. E encharcado de senso crítico. O que torna tal texto de difícil compreensão e interpretação. Quais seriam os limites entre a ironia cômica e a crítica filosófica dentro do Crátilo? Essa é uma pergunta que talvez jamais seja respondida definitivamente. Ao final do Crátilo, Platão realiza uma de suas inúmeras ironias e, afirmou que: "(...) quanto mais reflito e me ocupo com ela (com a máxima de Heráclito), tanto mais sou inclinado a aceitar a opinião de Heráclito”. Entretanto, tal ironia só pode ser compreendida à luz da advertência que fez logo no início do diálogo: "acautela-te, para que eu não faça uma tramoia contigo".
Em outros termos, "cuidado pois eu posso te enganar!" De fato, se o diálogo for literalmente lido haverá a impressão de que Platão finalmente concordou com Heráclito. Mas, quando se parte do pressuposto que se trata de mais uma ironia cômica, então se percebe que o que Platão fez foi criticá-lo e desdenhar, combatendo frontalmente a teoria da linguagem de Heráclito.
[7]Didascalicon foi também a denominação de um tratado escrito por Hugo de São Vitor (1096-1141) que serviu de referência tanto aos estudantes como os professores das recém-abertas escolas catedralícias da Europa medieval. A obra divide e classifica, sistematicamente, as formas de conhecimento.
[8] Parece [...] que os homens de antigamente quando estabeleceram os nomes, se encontravam em situação idêntica a da maioria dos sábios do nosso tempo, os quais, à força de andar à roda para investigar a natureza das coisas, acabam tomados de vertigem, acreditando que são as próprias coisas que giram e que tudo o mais ao redor deles é pelo mesmo teor. Não atribuem a culpa dessa maneira de pensar ao que se passa em seu íntimo, mas imaginam que decorre das próprias coisas, que nada é estável e permanente, e que tudo passa e se movimenta, e se encontra em permanente estado de modificação e geração (Crátilo, 411b-411c). Pode-se concluir precariamente é que para Platão a teoria da linguagem de Heráclito é vertigem. Posto que se estivesse correto, então os objetos enquanto cópias imperfeitas do mundo das ideias ou formas, estão condenadas a se modificarem e até desaparecerem. Entretanto, se não houver o pensamento para captar esse movimento, não haverá fluxo algum. O que Heráclito fez foi anunciar o movimento de decadência dos objetos, enquanto cópias imperfeitas do mundo das ideias.
[9] Em Filosofia existem dois tipos principais de teoria do significado. Mas, o termo "teoria do significado" tem figurado de certa forma, em um grande número de debates filosóficos durante a última metade do século XX. E, infelizmente significando coisas diferentes. O primeiro tipo de teoria semântica é a que designa conteúdos semânticos e as expressões de uma língua. E as abordagens da semântica podem ser divididas de acordo conforme as linguagens atribuem ou não proposições aos significados das frases e, se o fazem, qual é a visão que elas nos levam a pensar sobre a natureza dessas proposições. O segundo tipo de teoria, a teoria fundamental de sentido é a que afirma os fatos em virtude da qual as expressões possuem conteúdo semântico que estas possuem. As abordagens dessa teoria podem ser divididas em teorias que explicam, e as teorias que não explicam os significados das expressões da linguagem utilizada por um grupo tem termos do conteúdo dos estados mentais dos membros desse grupo.
[10] Prosseguiu Platão a criticar a ideia heraclitiana do "fluxo contínuo", ou seja, de que a realidade é fluxo constante. E questiona: se todas as coisas mudam e a realidade é um fluxo, então como é possível explicar a existência das cidades e de tudo o mais que o ser humano conhece? Independentemente das mudanças históricas e culturais o belo é uma categoria do pensamento sempre reconhecida pelos homens. Se Heráclito realmente estivesse correto sobre o belo, enquanto categoria de pensamento, teria desaparecido. no entanto, o belo continuava a existir no período em que o diálogo foi escrito, isto é, o século V a.C. Portanto, para Platão, a palavra não é a única forma de conhecer os objetos, tal como defendeu Heráclito. A palavra é mera "imitação vocal" do objeto. Apesar de ser essencial dentro do processo de comunicação, esta não é a mais perfeita representação do objeto. Antes da palavra existe o pensamento. E, por sua vez, o pensamento não cogita na palavra, e sim, do objeto. A palavra é elo de ligação entre o pensamento e o objeto. E, mais tarde, descobriremos que entre o sujeito e o objeto. Além disso, contra-argumentando Heráclito, Platão apresentou o problema da existência do conhecimento. In litteris: "Nem seria mesmo razoável afirmar, Crátilo [representando Heráclito], a possibilidade do conhecimento, se todas as coisas se transformam e nada permanece fixo. Se isso mesmo, o conhecimento, não se modifica nem se afasta do conhecimento, então o conhecimento permanecerá e haverá conhecimento. Mas, se a própria idéia do conhecimento se modificar, terá de transformar-se numa idéia diferente do conhecimento, e então não haverá conhecimento. Se sempre se transformasse, nunca poderia haver conhecimento e, pela mesma razão, não haveria alguém que conhecesse (Crátilo, 440b)." Assim, finalmente Platão demonstrou que tudo se transforma e nada permanece fixo como defendeu Heráclito, então até o conhecimento seria impossível.

[11] A lógica aristotélica representou o maior desenvolvimento da teoria lógica, que foi respeitado durante séculos. Kant, que estava dez vezes mais distante de Aristóteles do que nós, assegurou que nada de significante fora adicionado à lógica de Aristóteles durante dois milênios. O trabalho da lógica de Aristóteles é concentrado em seis textos que são conhecidos, de forma coletiva, como o "Organon" ("instrumento").
Dois desses textos, em particular, o "Primeiras Analíticas" e a Interpretação, contêm o mais importante pensamento de Aristóteles sobre o tratamento das sentenças e inferência formal. O nascimento da chamada lógica moderna, através do trabalho de Gottlob Frege e Bertrand Russell, trouxeram a tona sérias limitações da lógica aristotélica.

[12]A palavra aula deriva do latim aulae que significa pátio ou palácio. Vem de adaptação do grego no sentido de ser "espaço ao ar livro, pátio".

[13] No início era o Verbo essa é conhecida abertura do primeiro capítulo do Evangelho de João, que em seus versículos iniciais retoma o mito da criação cristã, tema ainda presente no primeiro capítulo do Gênesis. Ao tratar o deus cristão como o próprio "Verbo", João Evangelista incorpora à tradição cristã a concepção grega da oposição existente entre logos e caos, oposição também existente nos textos como a Teogonia de Hesíodo, escrito por volta de 900 d.C. Corresponde ao quarto e último evangelho. "(...) No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Tudo foi feito por ele; e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.» (João 1:1-4) ".

[14]Nominalismo é a doutrina que não admite a existência universal nem no mundo das coisas, nem do pensamento. Em sua forma mais radical surgiu no século XI por intermédio de Roscelino de Compiègne (que atribuía universalidade aos nomes, daí a origem do termo).

[15]Guilherme de Ockham ou em inglês William of Ockam. Existem variadas grafias sobre o nome: Ockham, Ockam, Occam, Auquam, Hotham e inclusive, Olram. (1215-1347) Foi um frade franciscano, filósofo, lógico, teólogo escolástico inglês, considerado como o representante mais eminente da escola nominalista principal corrente oriundo do pensamento Roscelino de Compiègne (1050-1120). Conhecido como o "doutor invencível" ou doctor invicibilis e o iniciador venerável (venerabilis inceptor), nasceu na vila de Ockham, nos arredores de Londres, na Inglaterra em 1285, e dedicou seus derradeiros anos de vida ao estudo e à meditação num convento de Munique. Morreu em 09 de abril de 1347 vítima da peste negra (foi uma pandemia de peste bubônica que assolou a Europa durante o século XIV e dizimou entre 25 a 75 milhões de pessoais que corresponderia a um terço da população da época).
[16]Friedrich Ludwig Gottolob Frege ou Gottlob Frege (1848-1925) foi um matemático, lógico e filósofo alemão. Trabalhando na fronteira entre a filosofia e a matemática. Foi o principal criador da lógica matemática moderna, sendo considerado juntamente com Aristóteles, o maior lógico de todos os tempos. Em 1903 publicou o segundo volume de Grundgesetze der Arithmetik (Leis básicas da Aritmética), em que expunha um sistema lógico no qual seu contemporâneo e admirador Bertrand Russell encontrou uma contradição, que ficou conhecida como o paradoxo de Russell. Esse episódio impactou profundamente a vida produtiva de Frege. Segundo Russell, apesar da natureza de suas descobertas marcarem época, sua obra permaneceu na obscuridade até 1903, quando o próprio filósofo e matemático inglês chamou atenção para a relevância dos escritos. O grande contributo de Frege para a lógica matemática foi a criação de um sistema de representação simbólica (Begriffsschrift, conceitografia ou ideografia) para representar formalmente a estrutura dos enunciados lógicos e suas relações, e a contribuição para a implementação do cálculo dos predicados. Essa parte da decomposição funcional da estrutura interna das frases (em parte substituindo a velha dicotomia sujeito-predicado, herdada da tradição lógica Aristotélica, pela oposição matemática função-argumento) e da articulação do conceito de quantificação (implícito na lógica clássica da generalidade), tornado assim possível a sua manipulação em regras de dedução formal. (As expressões "para todo o x", "existe um x", que denotam operações de quantificação sobre variáveis têm na obra de Frege uma de suas origens). Ao contrário de Aristóteles, e mesmo de Boole, que procuravam identificar as formas válidas de argumento, e as assim chamadas "leis do pensamento", a preocupação básica de Frege era a sistematização do raciocínio matemático, ou dito de outra maneira, encontrar uma caracterização precisa do que é uma “demonstração matemática”. Frege havia notado que os matemáticos da época frequentemente cometiam erros em suas demonstrações, supondo assim que certos teoremas estavam demonstrados, quando na verdade não estavam. Para corrigir isso, Frege procurou formalizar as regras de demonstração, iniciando com regras elementares, bem simples, sobre cuja aplicação não houvesse dúvidas. O resultado que revolucionou a lógica foi o desenvolvimento do cálculo de predicados (ou lógica de predicados).
[17] O neopositivismo lógico é também chamado de positivismo lógico, filosofia analítica, empirismo contemporâneo ou empirismo lógico corresponde a uma corrente de pensamento que se desenvolveu no início do século XX através do Círculo de Viena. O neopositivismo lógico parte da premissa que todo saber começa na experiência sensível, daí ser também chamado de empirismo lógico. E, nesse sentido é positivista, posto que o saber se daria através dos fenômenos da percepção imediata, impressões, e, etc. Ao mesmo tempo, apresenta-se fisicalista, abandonando a metafísica e trazendo ao mundo dos corpos a base da experiência: isso marca a recusa total de qualquer metafísica. Dessa forma, pregavam os seguidores dessa linha a impossibilidade de conhecer a constituição e as leis do mundo real através de pura reflexão, sem qualquer controle empírico. Precioso marco desse pensamento foi a obra de Rudolf Carnap, que fixou por base que a única fonte do saber é o imediatamente dado na percepção sensível, de modo que todos os conceitos produzidos devem ser conduzidos  por esses  dados básicos, para que tenham valor filosófico.  Outra marca do Neopositivismo Lógico foi a redução da Filosofia à Epistemologia (como explicitado acima), e desta última à Semiótica, buscando dar dignidade científica à Filosofia e também demonstrando a importância dada à linguagem como instrumento do saber científico.
[18]O Círculo de Viena, ou em alemão, Wiener Kreis foi o nome como ficou conhecido um grupo de filósofos que se juntou informalmente na Universidade de Viena de 1922 a 1936 com a coordenação de Mortz Schlick. Também foi chamado de Sociedade Ernst Mach ou Verein Ernst Mach em homenagem a Ernst Macht; Realizavam reuniões semanais onde procuravam reconceitualizar o empirismo a partir das novas descobertas científicas e demonstrar as falsidades da metafísica. Suas atividades cessaram quando Schlick foi assinado por um de seus discípulos, figura destacada do movimento nazista, os membros do Círculo e então se dispersaram frente à perseguição nazista. Seu sistema filosófico ficou conhecido como "positivismo lógico ou neopositivismo ou ainda, empirismo lógico. Os membros do Círculo de Viena uma visão comum da filosofia, que consistia na aplicação das postulações de Wittgenstein expostas em sua primeira obra. Embora Wittgenstein insistisse que o positivismo lógico fosse uma visão errada sobre seus escritos. A influência do Círculo de Viena na Filosofia do século XX foi imensa.

[19] Oferece um bom momento de reflexão dado por Warat em sua segunda edição da obra "O direito e sua linguagem", cujo esboço remonta há exatamente duas décadas e trazia, então, à consideração um discurso que pretendia denunciar, provocar e balançar o conjunto das significações jurídicas imaginárias pelas quais foi possível legitimar a desigualdade imposta pela modernidade.

[20] A palavra paradoxo tem ampla abrangência e aplicação. Tendo acepção muito vasta incluindo vasta gama de problemas. Etimologicamente, paradoxo é composto de "para" que significa ao lado de, além de e, "doxa" que significa juízo, opinião, crença. Segundo Guerreiro, Cícero afirmou que a palavra era usada pelos gregos ao se referirem aos determinados ditos que os romanos consideravam assombrosos ou se conflitavam com o senso comum. Um paradoxo pode ser definido como uma conclusão inaceitável, derivada de raciocínio aparentemente aceitável e a partir de premissas aparentemente aceitáveis. A história da mentira sob o ponto de vista do paradoxo parece uma empreitada sem sentido: a mentira é em si paradoxal. O máximo que se pode fazer é procurar construir a história da mentira sob o ponto de vista lógico, a história da abordagem lógica que a mentira sofreu, quando foi tomada como tema da lógica com o célebre Paradoxo da Mentira. A versão mais antiga do paradoxo do mentiroso é atribuída ao filósofo grego Eubúlides de Mileto (384-322 a.C.).

[21] Na discussão da antinomia do mentiroso (O exemplo de Tarski é: “A SENTENÇA IMPRESSA EM VERMELHO À PAGINA 65 DO NÚMERO DE JUNHO DE 1969 DO SCIENTIFIC AMERICAN É FALSA”; que o tradutor adapta para “A SENTENÇA IMPRESSA EM MAIÚSCULAS À PÁGINA 100 DESTA TRADUÇÃO É FALSA”.), duas podem ser as abordagens principais, conforme ensina Tarski, exatamente opostas. Uns tratam a questão como não séria, e simplesmente a desconsideram. Outros, a consideram como fonte do progresso real.  Mas o autor não foge da polêmica e pretende enfrentar o problema com o intuito de eliminá-lo positivamente, isto é, pretende revisar os princípios pré-estabelecidos para elaborá-los de forma a extinguir as antinomias.
Após rejeitar algumas teorias, Tarski resolve pelo uso da noção de verdade, porém com algumas restrições, e decide pela análise da linguagem comum que, segundo ele, é a formadora da antinomia do mentiroso por excelência. Ora, todos sabemos, essa linguagem é universal. Então, como aplicar uma formulação que de antemão vimos que não se aplicaria às linguagens universais? Tarski resolve essa questão com mais um corte. Se por um lado a linguagem comum é universal, em alguma situação ela tem objeto tão específico que o foco reduz-se a determinados aspectos que são tratados dentro de um rigor absoluto, tornando essa face da linguagem passível de análise lógica. É o caso das várias ciências. Os cientistas, ao tratarem de um assunto, preliminarmente acordam quanto ao uso dos termos para determinadas coisas, e, pois, há um fechamento do vocabulário e a noção de verdade pode ser considerada nesse contexto. Essas são, segundo Tarski, as linguagens formalizadas.

[22]Nesse sentido, Tarski confirma “decidir em que casos uma determinada sentença é verdadeira é objeto da própria ciência e não da lógica ou da teoria da verdade”. A teoria da verdade é o que dá suporte às conclusões científicas. Mas não poderia, de fato, pretender determinar o que é ou não é verdade em todos os campos da ciência, posto que para isso, deveria ser todas as ciências, o que não acontece. Por outro lado, toda ciência trabalha com a verdade, e, pois é preciso que se estabeleça um critério de verdade e, mais, que se determine um método de demonstração dessa verdade, porquanto somente assim será possível o trabalho científico. isto é, não basta estabelecer o que é verdade faz-se necessário demonstrar essa verdade, mas isso já é tarefa de cada ciência particular. Vale dizer, a lógica ou a teoria da verdade deve preocupar-se com a validade formal da ciência, e não com a validade material.
[23]Bertrand Arthur William Russel, terceiro Conde Russell (1872-1970) foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Político liberal, ativista e popularizador da filosofia, Russell foi respeitado por muitas pessoas como um tipo de profeta da vida racional e da criatividade. Sobre alguns temas, sua postura fora controversa. Recebeu o Nobel de Literatura de 1950 em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideiais humanitários e pela liberdade do pensamento. Durante sua longa e produtiva vida, elaborou um das mais influentes teses filosóficas do século XX. E ajudou a fomentar uma das suas tradições filosóficas, a chamada Filosofia Analítica. Destacaram-se a tese logicista, ou da lógica simbólica, de fundamentação da Matemática. Segundo Russel. todas as verdades matemáticas e não apenas as da aritmética, como pensava Frege, poderiam ser deduzidas a partir de umas poucas verdades lógicas e todos os conceitos matemáticos reduzidos a uns poucos conceitos lógicos primitivos. Um dos elementos impulsionadores desse projeto foi a descoberta, em 1901, de um paradoxo no sistema lógico de Frege, o chamado paradoxo de Russell. A solução para esses e outros paradoxos foi a teoria dos tipos (inicialmente, a teoria simples dos tipos; posteriormente, a teoria ramificada dos tipos), um dos pilares do seu logicismo. Segundo Russell, trata-se de se imporem certas restrições à suposição de que qualquer propriedade que pode ser predicada de uma entidade de um tipo lógico possa ser predicada com significado de qualquer entidade de outro ou do mesmo tipo lógico. O tipo de uma propriedade deve ser de uma ordem superior ao tipo de qualquer entidade da qual a propriedade possa com significado ser predicada. Como outro pilar desse projeto, concebeu a teoria das descrições definitivas, apresentada em oposição a algumas de suas antigas ideias, especialmente, as contidas em sua teoria do significado, e da denotação defendida no seu livro Os princípios da Matemática e à teoria do sentido e a referência de Frege. Para esse filósofo, a análise lógica precisa de frases declarativas contendo descrições definidas... tais como o número primo par, o atual rei da França e, etc.. deve deixar clara que, contrariamente às aparências, essas frases não expressam proposições singulares - algumas vezes denominadas de proposições russellianas, mas proposições gerais.
[24] Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (1889-1951) foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico. Foi um dos principais atores da virada linguística na filosofia do século XX. Suas principais contribuições foram nos campos da lógica, filosofia da linguagem, filosofia da matemática e filosofia da mente. Muitos o consideram o filósofo mais relevante do século passado. Seu pensamento é dividido m duas partes. Para identificá-las, muitos autores recorrem ao artifício os escritos da juventude ao Primeiro Wittgenstein e a obra posterior ao Segundo Wittgenstein, como se designasse autores distintos.

[25] Segundo Wittgenstein: "Filosofar é: descartar argumentações erradas".

[26] O conceito de jogo de linguagem utilizado pelo Wittgenstein, além de ser um dos conceitos centrais para constituição de sua teoria, é introduzido – assim me parece – na tentativa de explicar como o significado da palavra pode ser entendido como o seu uso em um determinado contexto. Para Wittgenstein, agora o significado não deve mais ser compreendido como algo fixo e determinado, como uma propriedade que emana da palavra, mas sim como algo que as expressões linguísticas, a linguagem, exercem em um contexto específico e com objetivos específicos. O que significa que o significado pode variar dependendo do contexto em que a palavra é utilizada e do propósito desse uso.

[27] Jürgen Habermas é um filósofo e sociólogo alemão inserido na tradição crítica e do pragmatismo. É conhecido por suas teorias sobre a racionalidade comunicativa e a esfera pública sendo considerado um dos mais importantes intelectuais contemporâneos. Associado a Escola de Frankfurt tratou dos fundamentos da teoria social e da epistemologia, da análise da democracia nas sociedades sob o capitalismo avançado, do Estado do direito em um contexto de evolução social.


[28] O projeto de Frege se realizou somente parcialmente. Pois que outras ideias suas falharam, em especial sua ideia de fundar a matemática sobre a lógica tomando por base sua linguagem ideográfico. O fracasso parcial de sua empreitada teórica não diminui, porém, o resultado de seu trabalho fez com que alguns estudiosos o comparasse com Cristovão Colombo que navegando em busca das Índias, apesar de falhar em seu intento inicial, acabou por descobrir a América.
Desta forma, tentando dar fundamento lógico à matemático,  Frege não obteve êxito, porém descobriu todo um grande continente intelectual, ou seja, a nova lógica e os problemas da filosofia da linguagem.

[29] Logocentrismo é termo cunhado pelo filósofo alemão Ludwig Klages nos anos de 1920 e se refere à tendência no pensamento ocidental de se colocar o logos (palavra grega que significa palavra ou razão) como o centro de qualquer texto ou discurso. Jacques Derrida usou o termo para caracterizar boa parte do pensamento ocidental desde Platão: uma busca constante pela "verdade".

[30] As palavras não devem apenas ser usadas para descrever a realidade, como supunha a semântica tradicional, mas também para realizar algo objetivo como fazer uma saudação, pedido, dar uma ordem, agradecer, pedir socorro, contar piadas, ministrar uma aula e, etc. A mesma palavra pode ser utilizada em diferentes contextos dotada de diferentes significados. E, são esses diferentes contextos de uso com seus objetivos específicos que Wittgenstein denomina jogo de linguagem.

[31] A filosofia foi o elo de união entre a ciência e religião. Foucault diz que “as palavras da filosofia se propõem ao homem como coisas a decifrar”. A grande metáfora do livro que se abre, que se soletra e que se lê para conhecer a natureza não é mais que o reverso visível de uma outra transferência, muito mais profunda, que constrange a linguagem a residir ao lado mundo, em meio às plantas, as ervas e animais. A vontade de comunicar e a capacidade de comunicar ainda estão distantes e limitadas.

[32] Metaética é o ramo da ética que procura entender a natureza das propriedades éticas, enunciados, atitudes e juízos. É um dos três ramos da ética geralmente reconhecidos pelos filósofos. Os outros são a ética aplicada e a ética normativa, teoria ética e ética aplicada formam a ética normativa. A metaética tem recebido considerável atenção dos filósofos acadêmicos nas últimas décadas. Há três tipos de problemas metaéticos: 1) qual o significado dos termos e juízos morais; 2) Qual natureza dos juízos morais; 3)Como os juízos morais podem ser apoiados e defendidos?.

[33] Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos;
Mateus 18:23.

[34] John Langshaw Austin (1911-1960) foi filósofo da linguagem, britânico desenvolveu a maior parte da atual teoria dos atos do discurso. Filiado à vertente da Filosofia Analítica interessou-se pelo problema do sentido em filosofia. As teorias de Austin foram propagadas nos Estados Unidos por seu aluno John Searle. Searle com sua obra Speech Acts Theory (1969). Também o filósofo francês Jacques Derrida desenvolveu uma teoria da linguagem baseada no trabalho de Austin.

[35] Escola de Frankfurt ou Franfurter Schule refere-se à escola de teoria social interdisciplinar neomarxista, particularmente associada com o Instituto para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. A escola inicialmente consistia de cientistas sociais marxistas dissidentes que acreditavam que alguns dos seguidores de Marx tinha se tornado "papagaios" de uma limitada seleção de ideias de Marx, usualmente em defesa dos ortodoxos partidos comunistas. Entretanto, muitos desses teóricos admitiam que a tradicional teoria marxista não poderia explicar adequadamente o turbulento e inesperado desenvolvimento de sociedades capitalistas no século XX. Críticos tanto do capitalismo e do socialismo da União Soviética, as suas escritas apontaram para a possibilidade de caminho alternativo para o desenvolvimento social. Desde 1960, a teoria crítica de Escola de Frankfurt tem sido crescentemente guiada pelo trabalho de Habermas na razão comunicativa, intersubjetividade linguística e o Habermas chama de discurso filosófico da modernidade.

[36] As cores falam todas as línguas." Colors speak all languages.- "The Spectator", n. 416, 27 de junho de 1712; "The Works of Joseph Addison: Complete in Three Volumes : Embracing the Whole of the "Spectator," "&c; Por Joseph Addison; Publicado por Harper & Brothers, 1837 books.google.
[37] "Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo". Ludwig Wittgenstein.

[38] Max Horkheimer (1895-1973) foi um filósofo e sociólogo alemão. Como grande parte dos intelectuais da Escola de Frankfurt, era judeu de origem, filho de industrial Moses Horkheimer, e ele próprio estava destinado a dar continuidade as negócios paternos. Por meio de seu amigo Friedrich Pollock, associou-se em 1923 ao Instituto para Pesquisa Social, do qual foi diretor, em 1931, sucedendo o historiador austríaco Carl Grünberg. A teoria crítica de Horkheimer pretende que os homens protestem contra a aceitação resignada da ordem total totalitária. A "razão polêmica" de Horkheimer, ao se opor à razão instrumental e subjetiva dos positivistas, não evidencia somente uma divergência de ordem teórica. Ao tentar superar a razão formal positivista, Horkheimer não visa suprimir a discórdia entre razão subjetiva e objetiva através de um processo puramente teórico. Essa dissociação somente desaparecerá quando as relações entre os seres humanos, e destes com a natureza, vierem á configurar-se de maneira diversa da que se instaura na dominação. A união das duas razões exige o trabalho da totalidade social, ou seja, a práxis histórica.
[39] Herbert Marcuse (1898-1979) foi influente sociólogo e filósofo alemão naturalizado norte-americano (nasceu em Berlim). No livro "Ideologia da Sociedade Industrial", Marcuse repete a crítica ao racionalismo da sociedade moderna, e tenta ao mesmo tempo esboçar o caminho que poderá nos afastar dele. O caminho será, por um aspecto, a contestação da sociedade pelos marginais que a sociedade desprezou ou não conseguiu beneficiar. Será por outro aspecto o desenvolvimento extremo da tecnologia, que deverá ter, segundo Marx e Marcuse, efeitos revolucionários. Quais são estes efeitos? O problema da sociedade moderna é a invasão da mentalidade mercantilista e quantificadora a todos os domínios do pensamento. Essa mentalidade se representa economicamente pelo valor de troca, ligado de modo íntimo aos processos de alienação do homem. E, segundo Marx, com o desenvolvimento extremo da tecnologia "a forma de produção assente no valor de troca sucumbirá". A sociedade moderna, sentindo, que sua base a tecnologia - contém seu rompimento, age repressivamente para evitar este avanço extremo. Marcuse tinha esperança de que não.
[40] Walter Benedix Schönflies Benjamin (1892-1940) foi ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão Associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica fora intensamente inspirada pelos autores marxistas, tal como Bertolt Brecht e também pelo místico Gershom Scholem. Conhecedor profundo da língua e culturas francesas, traduziu para o alemão importantes obras como "Quadros Parisienses" de Charles Baudelaire e "Em Busca do Tempo Perdido" de Marcel Proust. O seu lavor combinou ideiais aparentemente antagônicas do idealismo alemão e do materialismo dialético aliado ainda ao misticismo judaico constituindo uma contribuição original para a teoria estética. Entre suas obras mais conhecidas, registram-se a "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica” (1936) "Teses Sobre o Conceito de História" (1940) e a monumental e inacabada "Paris, Capital do Século XIX" enquanto "A Tarefa do Tradutor" representa até hoje uma referência para os estudos literários.
[41] Benjamin tomou como ponto de partida para sua concepção de linguagem a Bíblia, em especial, o Gênesis. E, dois fatos são marcantes para Benjamin na sua interpretação do texto sagrado. O primeiro é relativo à palavra criadora de Deus, que ao ser proferida dá vida ao mundo: "Deus disse: Faça-se a luz! E a luz se fez." O segundo refere-se ao movimento operado pela linguagem dos nomes que é ao mesmo tempo reconhecedora e designadora. Narra o Gênesis que "Deus formou da terra todos os animais selvagens e todas as aves do céu, e os trouxe ao homem para ver como os chamaria; cada ser vivo teria o nome que o homem lhe desse. E o homem deu nomes a todos os animais domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens”. Estes dois episódios são marcantes para a concepção de linguagem para Benjamin. Um narra o poder que a palavra divina tem de criar e constituir o mundo e, outro marca de forma singular a atividade da linguagem dos nomes, que é simultaneamente reconhecedora e designadora. Essa capacidade originaria da linguagem dos nomes, que encerra a relação direta entre linguagem e conhecimento, pois no ato de nomear pressupõe-se intrinsecamente o reconhecimento, decaí com advento da queda. Na queda, e o mito é interpretado à luz de uma teoria da linguagem, inaugura-se a Babel, ou seja, emerge a fissura irremediável entre linguagem e conhecimento.


[42] Na teoria metapsicológica de Freud, a linguagem desempenha dupla função em relação à consciência. Em primeiro plano, tornaria possível a consciência que podemos chamar de "mediata", ou seja, a rememoração. E sustentou que é a associação de uma representação com as associações linguísticas que permitiria a sua rememoração, portanto, antes da constituição das representações- palavras só haverá a possibilidade de uma consciência imediata, ou seja, resultante diretamente das propriedades dos estímulos perceptivos.
Mas, a linguagem, além de possibilitar a consciência mediata, teria uma outra função: seria responsável por parte da organização que os estímulos perceptivos sofreriam antes de se tornarem conscientes. Freud formulou a hipótese de que a memória possuiria diversos níveis de registro, de maneira que um estímulo de origem exógena, antes de tornar consciente, passaria por uma série de reorganizações, no último nível da qual as representações seriam reordenadas segundo as relações verbais - processo chamado de elaboração secundária. Assim, a linguagem desempenharia também, em relação à consciência, a função de organizar o campo perceptivo, o que implica na construção do mundo através da linguagem.



[43] Jean Baudrillard (1929-2007) foi um sociólogo e filósofo francês, consolidou a fama em 1991, com a provocação de que a Guerra do Golfo "não ocorreu", argumentando que nenhum lado poderia cantar vitória e que o conflito não alterou nada no Iraque. Dez anos depois, no ensaio "O Espírito do Terrorismo", voltou a causar controvérsia, ao descrever os ataques de 11 de Setembro de 2001 nos E.U.A. como expressão da "globalização triunfante combatendo a si mesma". Sobre o episódio, escreveu no ano seguinte Réquiem para as Torres Gémeas. A imagem fotográfica afasta ou atrai a população da realidade? A questão foi levantada por Baudrillard em São Paulo, em 2000, num seminário sobre imagem e violência. Foi uma fonte de inspiração os irmãos Wachowski na trilogia de Matrix. O personagem hacker Neo (Keanu Reeves), guardava seus programas de paraísos artificiais no fundo falso do livro Simulacros e simulação, de Baudrillard. O filósofo dizia não gostar do filme, considerando Matrix como uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. "Os diretores se basearam em meu livro mas não o entenderam", disse o filósofo certa vez.
[44] Jean-François Lyotard (1924-1998) foi um filósofo francês, foi um dos mais importantes pensadores na discussão sobre a pós-modernidade. Foi autor dos livros “A Fenomenologia", "A Condição Pós-Moderna" e o "O inumano". Em seu livro A Condição Pós-Moderna (1979), utiliza o conceito de "jogos de linguagem”, originalmente desenvolvido por Ludwig Wittgenstein, e refere-se a uma agonística entre esses jogos - característica da experiência da pós-modernidade, assim como a fragmentação e multiplicação de centros e a complexidade das relações sociais dos sujeitos. A primeira tradução para o português optou pelo título O pós-moderno, tendo recentemente retomado a tradução direta do original La Condition Postmoderne, a qual expressa devidamente uma condição de vivência, e não um estado dado. O Pós-moderno seria "o estado da cultura, depois de transformações súbitas nas regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes, a partir do século XIX. [...] Simplificando ao máximo, 'pós-moderno' é a incredulidade em relação às metanarrativas." Segundo Lyotard "não podemos mais recorrer à grande narrativa - não podemos nos apoiar na dialética do espírito nem mesmo na emancipação da humanidade para validar o discurso científico pós-moderno".
[45] Jacques Derrida (1930-2004) filósofo francês que iniciou durante os anos de 1960 a Desconstrução em filosofia. Tal termo deve ser conhecido como intuicionismo e construcionismo no campo da meta-matemática, na esteira da obra de Brouwer e depois Heyting, ao qual Derrida irá adicionar as devidas consequencias dos teoremas da indecidibilidade de Kurt Födek e, por outro, a um aprofundamento crítico da obra de Husserl, Heidegger e Levinas na ultrapassagem da metafísica tradicional que ele vai apresentar como sendo uma "metafísica da presença"; A sua figura é diversas vezes alvo de ataques polémicos, sobretudo por autores que se reclamam da tradição "analítica", pelas suas opções de escrita filosófica, em geral retomando opiniões expressas por John Searle nos media, aquando da sua polémica durante os anos 80. Refere-se várias vezes também nestas polMichel micas os nomes de Alan Sokal e Jean Bricmont, embora estes autores nunca o tenham tratado especificamente, tendo-o apenas referindo em entrevistas nos media, como parte do que identificam de forma difusa como "pensamento francês", o que não evitou que diversos jornalistas o tenham associado à polêmica.
[46] Pedro Abelardo ou Pierre Abélard ou Pierre Abailard ou Pierre Abeilard ou Petrus Abaelardus (1079-1142) foi filósofo escolástico francês, teólogo e lógico. É considerado um dos mais ousados pensadors do século XII. Ficou conhecido e famoso por sua vida pessoal e particularmente pelo seu relacionamento com Heloísa, cogitada em sua obra "História das Minhas Calamidades". Abelardo, desde as primeiras dificuldades em Paris, mostrou-se sempre rebelde tendo até sido vítima de uma castração por causa do seu envolvimento amoroso com Heloísa, sobrinha do cónego Fulberto. Depois disso, Heloísa entrou para um convento e Abelardo, para um mosteiro. A partir desse período, trocaram cartas regularmente. Do relacionamento entre os dois nasceu um filho, Astrolábio. Abelardo foi condenado duas vezes, uma no Concílio de Soissons no ano de 1121, a que respondeu, como forma de desafio, fundando um oratório dedicado ao Espírito Santo (Oratório do Paracleto), e depois no Concilio de Sens em 1141 devido a pressões de Bernardo de Claraval, com quem se envolvera em polémica. Poucos meses mais tarde morria no Priorado de Saint-Marcel (Chalons-sur-Saône).